Defender o SUS e a pesquisa científica é a saída para a crise do Coronavírus (e a entrada para um mundo melhor)

A pior face do pânico é quando o motivo dele é real. É talvez este o sentimento de muitos quando se deparam com a crise do Coronavírus. A pandemia traz o risco da perda de muitas vidas no Brasil, país que vive há cerca de meia década uma crise econômica de desmonte do Estado e dos direitos dos cidadãos.

A pandemia pode ter sido responsável por decretar o fim do neoliberalismo, embora aqui no Brasil o governo não esteja dando o braço a torcer que foi esta doutrina que levou o mundo a uma situação calamitosa e ainda esteja tentando aplicar este receituário falido e sem efetividade.

Vários países passam por colapso em seus sistemas de saúde devido à pandemia, mostrando que não estavam preparados, e discutem a universalização deles como direito público. O Brasil possui desde o marco legal da Constituição de 1988 o Sistema Único de Saúde, o SUS, atualmente o único sistema público universal de saúde de um país com mais de 100 milhões de habitantes.

Claro que ele tem suas fraquezas, fruto do estrangulamento de recursos e de ministros da Saúde alinhados com os planos privados de saúde e sem compromisso com o povo que depende do SUS.

O ataque mais forte à Saúde foi a Emenda Constitucional (EC) 95, aprovada em 2016, no governo Temer, que provocou cortes na área ao limitar por 20 anos o orçamento de um ano ao anterior, corrigido apenas pela inflação. Isto fez com que deixasse de ser, na prática, respeitado o piso de 15% de investimento, que era uma grande vitória da coletividade nacional.

O governo Bolsonaro, que se seguiu, não fez nenhuma menção a derrubar esta medida, que inclusive foi aprovada por ele e um de seus filhos na votação na Câmara Federal. E foi justamente ela que colaborou com o caos que estamos perto de presenciar.

O ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse em entrevista que o Coronavírus jogará o SUS em colapso em abril por falta de vagas e equipamentos para a demanda prevista, mas não dá nenhuma medida concreta ou solução.

Está claro que, neste deserto de ideias do bolsonarismo, que a medida-chave para combater este colapso é justamente revogar a EC 95.

E a partir disso investir massivamente em estrutura e pessoal da saúde pública. Investir no SUS é economizar dinheiro público lá na frente, vide o exemplo das políticas de combate ao HIV/AIDS (premiadas internacionalmente), que economistas estimam que propiciaram economia de alguns bilhões de reais anuais aos cofres públicos com menor infecção de um lado e o tratamento buscando qualidade de vida dos infectados de outros.

Um governo mais comprometido com o SUS não evitaria a chegada do Coronavírus. Praticamente ninguém no mundo conseguiu. Por outro lado, permitiria respostas mais rápidas à emergência sanitária, teria mais leitos para os picos de infecção e melhor prevenção para não sobrecarregar o sistema em emergências. O SUS é coisa para ser investido e aprimorado desde já e precisa ser defendido de maneira incondicional.

E a pesquisa científica?

Outra área prejudicada pela EC 95 é a Educação. Ela é a porta de entrada para a pesquisa científica. Outro braço que ajudará o Brasil nesta crise e abrirá oportunidades para o futuro.

Nenhum país no mundo se tornou rico e soberano sem investimento em ciência. E isso vale para todas as áreas. Há um preconceito enraizado no Brasil sobre algumas áreas do conhecimento. E isso é justamente por algo chamado analfabetismo científico.

O Brasil tem atualmente um governo com uma grande carga de analfabetos científicos, gestores que ignoram os métodos e as nuances da ciência, que ignoram avisos e se penduram em crendices e gurus alucinados.

E para combater este analfabetismo científico, a solução é educação e ciência. Desde a ciência básica até estudos mais elaborados e “tecnológicos”. Ciência básica porque foi alguém fazer uma pesquisa básica sobre propriedade de números primos que nos levou à criptografia e sistemas de segurança eletrônicos, por exemplo. Do mesmo modo, conhecer o formato de animais, ajudou na aviação.

Não podemos nos iludir dos efeitos que esta conjunção de crises — a que tinha e a que chegou — deixará no Brasil tão logo a pandemia se encerre e possamos todos voltar a uma vida minimamente normal. E precisaremos de desenvolver muita ciência para dar um salto para o futuro.

Esta é a entrada para um mundo melhor. E quem não estiver pensando nisso não tem projeto algum de um país forte e soberano e melhor para todos os brasileiros.

Fonte: Sindiquímica-PR