Renda das mulheres brasileiras é 42,7% inferior à dos homens

A primeira tarefa daqueles que se comprometem com um mundo mais humano é reconhecer a existência das injustiças. Não há como combater as desigualdades sem identificá-las. Foi com esse objetivo que, nos últimos anos, diversos setores da sociedade brasileira fortaleceram o debate sobre o lugar da mulher e as injustiças que as atingem.

Por mais que alguns grupos políticos mal-intencionados neguem, os números deixam claro que o Brasil é um péssimo exemplo quando o assunto é a igualdade entre homens e mulheres. A renda das brasileiras, por exemplo, é 42,7% menor que a dos brasileiros.  Os dados são do estudo Indicadores e Índices de Desenvolvimento Humano: Atualização Estatística 2018, divulgado em setembro deste ano pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

As desigualdades de gênero no mercado de trabalho não param por aí: uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) identificou que aproximadamente metade das 247 mil mulheres entrevistadas foi demitida após a gravidez. Depois do fim da estabilidade temporária, garantida pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) às trabalhadoras gestantes, a demissão passa a ser a realidade de muitas brasileiras.

Para o diretor do Sindiquímica-PR Sérgio Luiz Monteiro, esse cenário é resultado de uma série de injustiças que atinge as trabalhadoras do Brasil. “Hoje, o país depende do trabalho das mulheres para se manter, mas trata essa parcela da população de forma injusta. Elas continuam recebendo menos que os homens pelo mesmo trabalho desempenhado e seguem sobrecarregadas pelo trabalho doméstico”, aponta.

O trabalho “invisível”

Não há dúvidas de que as mulheres conquistaram espaço na sociedade. Em 2015, mais de 30 milhões de lares brasileiros eram chefiados por mulheres, de acordo com um estudo elaborado pela Escola Nacional de Seguros. O Brasil chegou a ter uma mulher no cargo mais importante do país, a Presidência da República. A visibilidade e o protagonismo, no entanto, não podem ser confundidos com ausência de injustiças.

Falta muito para as brasileiras viverem em pé de igualdade com os homens. Na divisão do trabalho doméstico, por exemplo, o Brasil é o pior colocado entre os países da América Latina. Enquanto os brasileiros destinam 10,8 horas semanais às tarefas de casa, as mulheres gastam 20,9 horas. Os números são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Monteiro lembra que, ao contrário do que muitos podem pensar, o trabalho doméstico não é uma preocupação “privada”, e sim uma questão social. “A manutenção de uma casa é fundamental para a vida em sociedade, inclusive para as relações trabalhistas. É um trabalho ‘invisível’ e não remunerado que é central para o funcionamento de um país”, defende.

Não por acaso, os pesquisadores que elaboraram o estudo sobre desigualdades do Pnud identificaram que as duplas e até triplas jornadas de trabalho das mulheres (dentro e fora de casa) contribuem diretamente para a desigualdade de renda entre os gêneros.

“Sabemos que a CLT proíbe qualquer discriminação de gênero nas relações trabalhistas, mas a prática não é assim. Além de lutar pela igualdade de renda e direitos nas relações de trabalho, precisamos realizar uma grande mudança cultural. A luta das mulheres contra as injustiças é uma luta por direitos e por respeito”, afirma Monteiro.

Fonte: Sindiquímica-PR