Do campo à mesa, o perigo dos agrotóxicos

Antônio Luís trabalhava em uma fazenda de soja no Maranhão onde preparava a mistura de substâncias para aplicação na lavoura. Em 2009, quando sua máscara de proteção parou de funcionar, ele alertou a chefia, mas foi instruído a voltar ao trabalho e parar de reclamar. Três dias depois, desmaiou. Um ano mais tarde, teve um derrame. O médico confirmou: Luís havia sofrido intoxicação por agrotóxicos. A receita preparada todas as manhãs era um composto de Zap, 2,4-D e Cobra.

Em abril, Franciana Rodrigues, então estava grávida de 5 meses, saiu de casa na motocicleta do irmão. Enquanto se afastava de sua comunidade, cercada por duas grandes fazendas de soja, um avião pulverizou uma substância que a atingiu. No mesmo instante, suas pernas começaram a doer e vieram enjoo e tontura. Franciana foi levada para um hospital local e exames de sangue revelaram o envenenamento por agrotóxicos.

Transferida às pressas para um segundo hospital, a 5 horas de distância de Araguaína (TO), onde vive, ficou sete dias internada. “Eu não conseguia respirar, quase morri”, recorda. Na época, o médico advertiu que ela tinha pressão alta, sofria de infecção nos rins e que o parto precisaria ser por cesariana devido à falta de ar de Franciana. “Se eu não estivesse usando um capacete, teria sido meu fim”.

O proprietário da terra em que os pesticidas foram pulverizados visitou Franciana logo depois que ela chegou do hospital e se ofereceu para pagar as despesas médicas e custos com alimentação durante os meses que antecederam o nascimento do bebê. Em troca, pediu silêncio.

Leia também:
Envenenados pelo lobby, deputados querem disfarçar agrotóxicos
As sequelas dos agrotóxicos para trabalhadores rurais

Zap é um nome comercial para o glifosato, ingrediente ativo do Roundup da Monsanto, o mais usado no mundo, mas ligado a problemas de saúde humana e animal e ao declínio da biodiversidade. Apesar de liberado na maioria dos países, os resíduos máximos permitidos nos alimentos para consumo são drasticamente mais altos no Brasil do que na Europa: 10 vezes maior no café; 20 vezes maior na cana-de-açúcar; e 200 vezes maior na soja.

Cobra é uma marca registrada de Lactofen, substância proibida na União Europeia e usada legalmente no Brasil. Em 2008, após grande pressão de ONGs e acadêmicos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) começou a reavaliar seu uso, mas depois de oito anos determinou que o Cobra poderia permanecer no mercado sem alterações.

O veredicto não surpreende os críticos do processo de avaliação de agrotóxicos no Brasil. De acordo com o último relatório da Anvisa, apenas onze substâncias foram proibidas no Brasil apesar de dezenas delas terem sido banidas na UE, nos EUA e em outros países à medida que surgiram novas evidências científicas de danos.

O Brasil é hoje um dos consumidores mais vorazes de agrotóxicos do mundo, perdendo apenas para os EUA, e é o maior usuário entre os países em desenvolvimento, com gastos que chegam a 9,6 bilhões de dólares por ano. O perigo não coloca em risco apenas trabalhadores agrícolas e populações que vivem nas regiões pulverizadas: muitos agrotóxicos permanecem no meio ambiente e nos alimentos consumidos.

Existem hoje 150 substâncias autorizadas para uso no Brasil apenas na cultura da soja, 35 deles proibidos na Europa, segundo a professora da Universidade de São Paulo (USP), Larissa Bombardi. Entre os considerados mais perigosos e amplamente utilizados nas fazendas brasileiras estão acefato, atrazina, carbendazim e lactofen – todos proibidas na Europa.

Silvia Fagnani, diretora executiva do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg),  grupo a favor dos agrotóxicos, defende as diferenças entre as regulamentações da UE e brasileira. Para ela, “os produtos usados aqui podem não ser necessários em países com inverno rigoroso – frequentemente com neve – que reduz naturalmente as pragas e seus danos”.

As pesquisas feitas pelos órgãos reguladores mostram que uma parcela significativa dos alimentos cultivados e vendidos no Brasil viola as regulamentações nacionais sobre resíduos. A última análise da Anvisa revelou que de 9.680 amostras coletadas entre 2013 e 2015 – com testes feitos em culturas que vão de arroz a maçãs e pimentões – 20% continham resíduos além dos níveis máximos ou continham substâncias proibidas.

O poder das empresas

Os dez maiores fabricantes faturaram 7,9 bilhões de dólares, muitas delas corporações transnacionais que legalmente fabricam agrotóxicos em países desenvolvidos onde os produtos químicos tóxicos são proibidos para uso e os exportam para países em desenvolvimento, onde o uso é legalizado. SyngentaBayer e Basf são três exemplos.

A Syngenta produz atrazina e paraquat, ambos proibidos pela UE e comercializados no Brasil. Embora a Anvisa considere que o paraquat representa “riscos inaceitáveis à saúde e o proibirá no Brasil a partir de 2020”, a Syngenta defende a manutenção da oferta do produto.

Procurada pela reportagem, a Bayer admitiu que vende carbendazim. Já a Basf esclareceu que “no Brasil” não produz atrazina, paraquat, acefato ou carbendazim, mas não confirmou se produz ou não essas substâncias na UE ou em outro lugar e depois as vende no Brasil.

A ameaça à saúde e ao meio ambiente que essas substâncias representam não estão restritos ao Brasil. Os alimentos que recebem os defensivos são exportados para o mundo todo. A soja brasileira, cítricos, uva e café são consumidos em grande escala na UE e nos Estados Unidos, enquanto que a soja brasileira alimenta a pecuária e a avicultura no Brasil e em diversos países.

Por esse motivo, os resultados da Anvisa em relação aos resíduos em alimentos levantam sérias preocupações com relação aos produtos brasileiros vendidos e consumidos no exterior. Essa é uma questão em particular que a China talvez queira questionar, já que avalia mudar suas principais compras de soja e carne bovina dos EUA para o Brasil devido à guerra comercial entre os países.

No ano passado, o Comitê de Especialistas do Reino Unido sobre Resíduos de Pesticidas em Alimentos (Prif, na sigla em inglês), um órgão independente que presta assessoria ao governo, encontrou carbofuran  acima do limite legal em limões importados do Brasil.

O relatório do Prif indicou que, se todo o fruto contaminado fosse consumido, “as pessoas poderiam apresentar sinais transitórios de toxicidade colinérgica, como dor de cabeça, distúrbios do estômago, salivação e resposta reduzida da pupila”.

O carbofuran é proibido no Reino Unido desde 2001 e banido nos EUA há quase uma década por apresentar “um risco alimentar inaceitável, especialmente para as crianças, de consumir uma combinação de alimentos e água com resíduos”. Ele só foi proibido no Brasil no segundo semestre do ano passado, daí sua recente aparição nos limões no Reino Unido.

“É um duplo padrão que a União Europeia está satisfeita em importar produtos que são cultivados com pesticidas que foram considerados inseguros para uso na UE, como resultado de preocupações com a saúde humana ou danos ambientais”, afirma Nick Mole, diretor de política da Pesticide Action Network do Reino Unido.

Fonte: Carta Capital